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Blog Memória Futebol


Entre os melhores do Brasil no passado, futebol cearense viveu um ano de recuperação em 2018

Autor: José Renato - 30/11/2018   Comentários Nenhum comentário

8 de janeiro de 1963, estádio Presidente Vargas. Com um gol de Charuto, a seleção cearense de futebol venceu por 1 a 0 o selecionado pernambucano e chegou às semifinais do campeonato brasileiro de seleções de 1962, a principal competição do futebol brasileiro naquele momento. A equipe do técnico János Tratay contava com Aloísio, William, Alexandre, Evandro e Carneiro; Haroldo e Charuto; Carlito, Gildo, Mozart e Baíbe.

No dia 20 de janeiro, o futebol cearense pisou pela primeira vez no gramado do maior palco do futebol mundial, o Maracanã. O feito foi considerado como o grande feito do esporte alencarino até então. E não era pouca coisa mesmo. À frente, apenas os cariocas, paulistas e mineiros.

Poucos anos antes, o Tricolor de Aço, o Fortaleza, já assombrara o país ao chegar às finais da Taça Brasil em 1960 contra o Palmeiras, equipe que impedira o Santos de Pelé da disputa da competição. Feito que seria repetido anos depois em 1968, quando o mesmo Leão voltou a disputar o título máximo contra o Botafogo do Rio de Janeiro, então bicampeão carioca e com grandes nomes que comporiam a Seleção Brasileira que viria a conquistar a Copa do Mundo de 1970.

Engana-se, no entanto, quem acha que estes feitos alencarinos eram exceções. O futebol do Ceará sempre foi respeitado nacionalmente e considerado um dos maiores do país. Em 1964, o Vozão, Ceará, chegou às semifinais da Taça Brasil, perdendo para o Flamengo. Até mesmo o querido América chegou às quartas de final dessa competição, em 1967, eliminado apenas pelo Náutico, que vivia a época do único hexacampeonato de Pernambuco.

Para fechar a década de 1960, uma conquista importante: o do campeonato do Norte-Nordeste de 1969, pelo Ceará, em finais emocionantes contra o Clube do Remo. Esta conquista voltaria a ser alvinegra em 2015, diante do Bahia.

Os anos de 1970 continuaram marcantes para o futebol cearense. Sua qualidade fez garantir uma vaga na primeira edição do Campeonato Brasileiro, em 1971, através do Ceará. No ano seguinte, uma honrosa 13ª colocação em uma competição que reunia as 26 melhores equipes de todo o país. Em 1982, após eliminar a então vice-campeã paulista, a Ponte Preta, em pleno estádio Moisés Lucarelli, em Campinas, o alvinegro chegou às quartas de final da competição que reunia 44 times. Três anos depois, em 1985, a melhor colocação do estado, a 7ª colocação entre 44 equipes.

Então veio a Copa União de 1987, e com ela o futebol nordestino foi praticamente excluído da principal divisão do campeonato nacional, um “crime” que fez com que o Brasileirão passasse a ser uma competição de poucos estados da Federação, em sua maioria do sul e sudeste. Ainda assim, em 2010, o Vozão seria a 12ª melhor equipe do nosso futebol.

Ah, mas o Vozão não foi forte apenas em campeonatos brasileiros. Quem pode esquecer do vice-campeonato da Copa do Brasil em 1994, quando a derrota na final frente ao Grêmio veio acompanhada de um erro crasso da arbitragem que deixou de marcar um pênalti claríssimo em Sérgio Alves? Oscar Roberto Godói foi o herói gaúcho naquele dia.

Em 2005, mais uma vez, semifinalista.

E o Leão? Duas vezes vice-campeão da Taça Brasil em 1960 e 1968, logo em sua primeira participação no Campeonato Brasileiro, em 1973, o Fortaleza, com um timaço, ficou com a 18ª colocação, e no ano seguinte a 16ª, ambas competições que reuniram as 40 maiores equipes do futebol brasileiro. Em 1984, após eliminar o Palmeiras, com direito a vitória em São Paulo, o Leão foi a 15ª melhor equipe do país, feito que viria a ser superado em 2005, já em tempos de pontos corridos, quando ficou com a 13ª posição entre os 22 participantes.

Mas e o Ferrão? Participante frequente da primeira divisão do Campeonato Brasileiro, em duas oportunidades -1980 e 1981- ficou entre as 30 melhores equipes do futebol nacional, o que não é pouco.

Fortaleza é um das poucas cidades brasileiras com 3 equipes grandes.

Em 2018, as três maiores equipes cearenses fizeram bonito. O Ferroviário, com uma campanha épica, chegou à quarta fase da Copa do Brasil e também conquistou um título inédito, o de campeão da série D do Campeonato Brasileiro, assim como a Taça Fares Lopes, o que lhe rendeu nova vaga para a Copa do Brasil. O Fortaleza, então, foi ainda mais maravilhoso, ao vencer a série B, um feito único no estado alencarino. Já o Vozão, após um começo pífio, muito graças ao técnico Lisca fez uma campanha de recuperação espetacular e se manteve na série A.

Ano que vem, pela primeira vez na história dos pontos corridos, Vozão e Leão irão disputar a séria A do Campeonato Brasileiro, o que não é pouco. Não é difícil prever que o Clássico Rei proporcionará os maiores públicos da competição.

A recuperação vivida pelo futebol alencarino é algo inegável. Cabe lembrar que apenas 2 anos atrás, o futebol local tinha um representante na série B, outro na série C e um, compulsório, na série D. Ano que vem, serão 2 na série A, um na C e outro na D. O progresso é evidente.

Que 2019 possa ser o melhor ano da história do futebol cearense em todos os tempos. Com seus representantes galgando colocações inéditas entre as maiores equipes do futebol brasileiro, na série A e na Copa do Brasil. Que possam vencer também a Copa do Nordeste. Que o Ferrão continue seu caminho em busca de um lugar onde já esteve várias vezes.

Nós, cearenses, não nos contentamos com pouco. Sabemos que nosso lugar é entre os melhores, onde já estivemos várias vezes. Jamais podemos nos conformar em condições intermediárias. Seremos do tamanho que queremos ser. Sonhar também é reviver nossas maiores glórias já vividas. E -por que não?- muito mais.


 

 

NÃO à nova partida para decidir a Libertadores 2018

Autor: José Renato - 26/11/2018   Comentários Nenhum comentário

Durante transmissões esportivas nos anos 1970, tão logo a bola estufava as redes a voz forte do narrador, o maior de todos os tempos, Luiz Noriega, destacava: “Esporte é Cultura”.

Muito mais que um mero bordão da equipe de esportes da TV Cultura do qual fora criador e condutor, a mensagem inserida pautou a consciência coletiva de tantos admiradores do esporte bretão.

Não apenas por conta da minha memória afetiva, mas principalmente devido aos muitos que afirmaram ser os defensores da pátria durante os tempos de regime militar, o esporte, principalmente o futebol, foi alojado na categoria de droga, certo ópio do povo. O motivo deste entendimento muito se deveu ao seu uso como maneira de suavizar as relações entre a ditadura instaurada e a população de uma forma geral.

Como se isto acontecesse apenas durante aquele período. Sabemos que mesmo antes de Cristo, o esporte sempre foi utilizado com este fim. Mas justiça seja feita, não apenas este. Em nosso país, coube ao tempo comprovar isso. Muitos daqueles que contribuíram para definir o esporte como distração para o povo, não emitiram a mesma grita quando um presidente eleito democraticamente promoveu a realização de edições de Copa do Mundo e Jogos Olímpicos em nosso país, proporcionando os maiores gastos já feitos pela humanidade em prol da organização de atividades esportivas. Tendo como legado uma quantidade quase inesgotável de construções que, em sua maioria, permanecem sem uso e se deterioram a cada dia. Um crime ainda maior se considerarmos o fato de vivermos em um país com tanta miséria.

Ainda assim, creio piamente que acusar o esporte por muitas das mazelas que vivemos ao longo dos tempos seja criminoso.

Discurso fácil entre boa parte dos ditos homens públicos, costuma ser destacado outro mantra que diz “ser o esporte um importante meio para formação de cidadãos”. Sabemos, no entanto, que a verdade nela incluída, poucas vezes se faz presente. Em sua maioria, os políticos resumem a utilizá-lo como mero bordão para justificar, diante dos órgãos que controlam suas próprias contas, o gasto de verbas milionárias em iniciativas esportivas geridas por entes e amigos próximos, cujos objetivos, quando não se resumem a apenas acariciar seus caprichos, permeiam-se aos interesses de gerar lucros privados.

A população em geral, sem acesso às benesses proporcionadas, invariavelmente é presenteada com esmolas que estão longe de agir como fontes geradoras das riquezas que o esporte pode realmente proporcionar. Muito por conta disso, nós, pessoas comuns, costumamos vê-lo apenas como um meio para descarregar as angústias vivenciadas em nosso dia a dia tão apurado. Muitos fazemos nossas análises durante um grito de gol, comemorado ou sofrido. Assim é que se vive.

Os registros dos fatos e acontecimentos vividos ao longo de tantas experiências que a vida nos proporciona terão pouca valia se não embasarem nossas decisões futuras. A partir do momento em que os utilizamos na construção de uma nova realidade, estamos falando de aprendizado. Mais do que isso: lições aprendidas. O mero registro não é lição, mas sua existência é um grande facilitador. Apenas ao aprendermos, podemos falar em crescimento.

Convencionalmente, qualquer processo de aprendizagem se utiliza de métodos educativos consagrados. Isto explica, por exemplo, que a alfabetização de crianças, e até mesmo de adultos, seja algo tão básico. Estamos falando de humanos. E para aqueles que não os são?

Dono de uma sapiência sertaneja, Seo Demétrio, uma espécie de ‘faz tudo’ no sítio de meu avô Felipe, costumava ser duro com os animais que cuidava: “Se um animal ‘teimava’ em obedecer minhas ordens, às vezes ‘deixava ele sem cumê’. Só de lembrar da fome que isto causava, no dia seguinte, ‘tava todo mansim’”, confidenciava sobre o assunto.

Diante disso, tendo também como guia o mantra de Luiz Noriega, o River Plate deve ser punido severamente pelas atitudes de sua torcida nos momentos que anteciparam a realização da segunda partida da partida final da Taça Libertadores da América contra o Boca Juniors, inclusive com a eliminação de futuras participações em competições promovidas pela entidade organizadora, a Conmebol.

Assim como deveriam ter sido todas as equipes cujas torcidas proporcionaram situações similares. Esta decisão viria ao encontro do que os próprios argentinos defenderam após sofrerem, juntamente com policiais e atletas alvinegros, violência da torcida do Corinthians após a equipe paulista ser eliminada em partida válida pelas oitavas de final da Taça Libertadores em 4 de maio de 2006. Naquela oportunidade, alguns muitos raivosos torcedores alvinegros, inconformados pela derrota, por 3 a 1, em pleno estádio do Pacaembu, decidiram invadir o gramado.

A tragédia só não foi maior por conta de poucos policiais, heróis, que milagrosamente conseguiram conter a zanga apedeuta dos ditos ‘torcedores’. Em tempo, cabe lembrar que o Corinthians foi punido de forma cândida. Como tantos outros e como, infelizmente, deveria ser o caso do River Plate neste episódio.

Os maiores algozes do futebol são os seus próprios atores. Para o seu próprio bem, que não seja mais realizada partida alguma por esta competição.



 

 

Sobre o “caso Fabiola Andrade”

Autor: José Renato - 20/11/2018   Comentários Nenhum comentário

Apenas uma grave precipitação? Não, uma vergonha na Arena Corinthians.

O esporte, de uma forma geral, sobretudo o futebol, é reconhecido historicamente por ter um dos ambientes mais machistas. Dentro ou fora das áreas de competição e arredores, os exemplos são inúmeros e se somam a cada dia. Os casos de assédio, infelizmente, também continuam presentes. Lutar contra atos misóginos é uma obrigação daqueles que têm caráter. Também tem a ver com educação. Uma missão diária que deve estar presente em todos os nossos atos.

Desde os pequenos aos maiores. Sobre as mulheres em especial, cabe sempre lembrar afirmação feita por Victoria Woodhull, uma das maiores lutadoras em prol dos direitos civis para as mulheres: “Tudo que se fala sobre os direitos da mulher é tolice. Mulheres têm todos os direitos. Só precisam exercê-los”. Esta mera afirmação, no entanto, não os garantem. Por conta disso tantas ações feministas precisam ser desenvolvidas. Ainda assim, cabe entender, de forma efetiva, que o feminismo é a luta em busca da igualdade plena de direitos entre as pessoas independente do seu gênero e/ou de qualquer outro requisito utilizado para diferenciar pessoas. Atuar em prol do empoderamento feminino não tem relação com sobrepor os direitos das mulheres sobre os dos homens. Tem a ver com não apenas acreditar, mas agir em prol da plena igualdade de direitos entre todos os seres humanos.

Baseados em imagens realizadas ao final da partida entre Corinthians e Vasco no último sábado, dia 17 de novembro, válida pelo Campeonato Brasileiro da Série A, a instituição Sport Club Corinthians Paulista, inúmeros movimentos de apoio a mulheres esportivas e uma série de profissionais da área emitiram notas de repúdio ao suposto assédio que a jornalista Fabiola Andrade, repórter do Sportv/Rede Globo, teria sofrido de um colega seu de trabalho, mais especificamente do caboman. Nas imagens em movimento se nota algum manuseio dele junto ao cabo de áudio que fica preso à sua roupa.

Sugestionada por tudo isso, até mesmo a própria jornalista chegou a sinalizar estar arrasada com o fato. Posteriormente, ao rever as imagens e conversar com o próprio colega, que segundo ela, a procurara para explicar o que realmente acontecera, ela própria afirmou que o assédio não ocorreu. A partir de seu relato, em seguida, uma onda de pedido de desculpas pelo equívoco. “Que bom que tudo ficou esclarecido” foi meio que a frase padrão ao final desse lamentável episódio. Creio que não. Cabem ainda algumas perguntas ainda sem respostas: Quem irá resgatar a imagem do profissional que foi associada com a de um assediador? Meros pedidos de desculpas são suficientes para arrumar todo este estrago? Segue o jogo?

Todas as ações que possam, potencialmente, promover a geração de injustiças devem ser condenadas com veemência. Pessoas que agem em prol delas são cúmplices. Ao ver brevemente as imagens sob olhos minimamente justos, impossível não dar, ao menos, o benefício da dúvida. Infelizmente o clube paulista e tantos outros preferiram condenar. Mais que isso, jogaram querosene onde havia apenas uma leve faísca e, muito possivelmente, marcaram definitivamente a vida deste profissional. Mas o dano feito foi ainda maior. Alguém duvida que a partir deste fato todos os atos deste rapaz passarão a ser analisados sob outros olhos? Como foi para ele enfrentar seus entes, amigos e colegas de trabalho? Será que futuros verdadeiros atos de assédio serão vistos com a devida importância que cabe, por conta desse constrangedor comportamento? Quantos mais casos de “Escola Base” serão precisos acontecer até que muitos possam aprender como se portar? Agir de forma injusta é contribuir para que o mal se perpetue. As ações em prol do fim do assédio às mulheres no ambiente de trabalho, as maiores derrotadas com tudo isso.

Constrangimento é dor.



 

 

Fortaleza errou no episódio “La Casa de Papel”

Autor: José Renato - 18/11/2018   Comentários Nenhum comentário

Desenvolver atividades em prol da geração de riqueza, tendo em vista atender as necessidades atuais e futuras do mercado, este é um dos conceitos que fundamentam o marketing. Há muitos outros similares. Cabe uma importante ressalva: o uso do termo riqueza permite ampla e especial abrangência. Nem sempre expectativas financeiras imediatas devem guiar as decisões da área de marketing. Ainda assim, elas precisam estar sempre em pauta. Isto é, uma ação estratégica pode ser planejada de forma a gerar potencial resultado futuro. Cabe grifar, planejada. Ao seguirmos o mantra de que ‘não há almoço grátis’, muitos cuidados devem ser considerados e o mero esquecimento ou amadorismo costuma ser presenteado pelo que há de pior, sobretudo em um mercado tão competitivo: a perda da oportunidade.

Clube fundado em 18 de outubro de 1918 por Alcides Santos, meu tio-bisavô, o Fortaleza Esporte Clube ganhou como cores as mesmas da bandeira francesa, uma homenagem de seu fundador que lá estudara. Um clube aristocrático, cuja torcida, sobretudo durante as primeiras décadas de vida, era formada em sua maioria por membros das mais elevadas castas da sociedade alencarina. As conquistas dentro das quatro linhas não demoraram e sua colorida torcida logo veio a crescer. O grande salto no número de seus seguidores aconteceu a partir dos anos 1940, quando o Maguary, outro tradicional clube da capital cearense, abandonou os campos. O motivo foi óbvio: muitos de seus torcedores se recusaram a passar a torcer pelo seu então grande rival do estado, o Ceará, e por conta disso, abraçar as cores do Tricolor de Aço passou a ser uma escolha inevitável. O tempo veio comprovar a felicidade da opção feita.

As décadas passaram e com elas muitas conquistas ajudaram ainda mais a fortalecer a marca do Leão, seu mascote, fazendo de sua torcida seu maior patrimônio. E que torcida é essa? Uma das maiores da região nordeste, dona de uma fidelidade ímpar comprovada sobretudo nos momentos mais difíceis. Em que pese as conquistas de dois vice-campeonatos da Taça Brasil, nos anos de 1960 e 1968, motivos de orgulho eterno, os sete anos de permanência na famigerada Série C do Campeonato Brasileiro, entre os anos de 2010 e 2017, só serviram para elevar o valor de sua torcida a patamares imensuráveis. Que orgulho é ser Leão, ainda mais Tricolor de Aço. Não por acaso que o corrente ano de 2018, o do seu centenário, seja ainda mais um momento de êxtase ao time que conquistou de forma magnífica a Série B do Brasileirão, título inédito em seu estado. Exalta-se também o formidável trabalho de sua diretoria que, mesmo em momentos delicados da competição, bancou a manutenção do técnico Rogério Ceni, ainda que com um começo de trabalho apenas discreto com o vice-campeonato estadual. Já a campanha no campeonato nacional foi perfeita, mantendo-se líder ao longo de toda a competição. Todos estão de parabéns.

No último dia 15 de novembro, o Fortaleza se reencontrou com sua torcida pela primeira vez depois do título conquistado na partida diante do já rebaixado Juventude, de Caxias do Sul. O ônibus que levou os atletas à Arena Castelão praticamente foi carregado nos colos de seus torcedores. Um espetáculo lindo e emocionante que levou às lágrimas muitos de seus apaixonados, ansiosos por verem seus ídolos. Enfim o ônibus parou e sua porta foi aberta: eis que os atletas, um a um, saíram do ônibus fantasiados como personagens de uma série do Netflix, La Casa de Papel. Os momentos de euforia eram tão intensos que impossível não imaginar que a competente diretoria tricolor tivesse trabalhado de forma estratégica e feito uma parceria com a gigante norte americana. Enfim, uma espetacular ação de marketing. Afinal, um clube com uma marca tão forte e com milhões de seguidores apaixonados, dono de uma riquíssima história, vivendo o momento único de seu centenário, de retorno à principal divisão do Campeonato Brasileiro após 12 anos e de conquista de um título nacional inédito para si e seu estado, as práticas mais básicas de marketing afirmariam isso. Correto? Não, infelizmente tratou-se apenas de uma brincadeira de seus atletas. Uma pena…

Não demorou para que o nome do autor da ação fosse divulgado. Coube ao volante Nenê Bonilha, titular da equipe e fã da citada série, ser apontado como o agente motivador da ação gratuita em prol da Netflix. Segundo o que foi apurado, um troco à brincadeira feita pelo rival Ceará ao final do Estadual desse ano (La Casa Sem Troféu), quando o Tricolor foi derrotado. A Netflix, educada, ao menos, agradeceu pelo afago recebido através de seu twitter oficial e certamente levantou as mãos aos céus pela propaganda gratuita. Ao gigante Fortaleza, um lamento pela oportunidade perdida, que certamente não diminui em nada todo o brilhantismo de sua campanha. A gratuidade do uso de sua marca em prol do crescimento comercial de outrem é um equívoco não condizente ao clube e sua belíssima história. O clube, no entanto, é maior do que tudo isso e certamente aprenderá com o fato.



 

 

A ascensão do futebol cearense

Autor: José Renato - 19/11/2017   Comentários Nenhum comentário

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Uma equipe na Série B, outra na Série C do Brasileiro e um campeonato estadual pouco atraente e com um regulamento esdrúxulo. Esta era a realidade do futebol cearense no começo do ano de 2017. Nada fazia indicar que ao final dele, o futebol local estaria comemorando dois acessos nas competições nacionais, bem como o fortalecimento de duas outras tradicionais equipes.

Agora o estado tem uma equipe na Série A e outra na Série B. Pouco? Talvez ainda seja, diante a riquíssima história do futebol alencarino, outrora vice-campeão da Taça Brasil, em duas oportunidades, com o Fortaleza nos anos de 1960, e da Copa do Brasil, nos 1990, com o Ceará. A verdade é que o futebol em nosso querido estado, sim meu sangue cearense me permite tal ousada intimidade, vive um grande momento, e os resultados em campo e a alegria de nossos torcedores comprovam isso. 

O acesso para a Série A não é mais um sonho para o maior campeão do estado, o Ceará Sporting Club. Após a queda para a Série B em 2011, o Vozão chegou a passar por apuros, até mesmo namorou uma vexatória queda para a Série C em 2015, justamente no épico ano de conquista da Copa do Nordeste, seu maior título nos últimos tempos.

Sempre contando com apoio visceral de seu torcedor, que costuma garanti-lo os maiores públicos do futebol brasileiro, o time em campo parecia fraquejar nos momentos derradeiros da competição. Após conquistar o estadual no primeiro semestre, novamente o clube despontou como um dos favoritos para o acesso. Temerariamente os resultados em campo pareciam indicar mais um ano de decepção. Felizmente para os torcedores alvinegros, a chegada do técnico Marcelo Chamusca recolocou o time no rumo das vitórias e por conta disso, o acesso foi uma questão de tempo.

O Ceará na Série A é um presente que o futebol nordestino dá ao Brasil: “O Vozão voltou...”

Mas não foi só o alvinegro de Porangabuçu, o clube cearense que fez bonito no futebol nacional. Seu maior rival, o Fortaleza, o Tricolor de Aço, enfim saiu do longo pesadelo de 7 anos na Série C do Campeonato Brasileiro. Rebaixado em 2009 e depois de frequentes fracassos justamente nas partidas decisivas de acesso para a Série B, este ano foi a redenção. Superando a desconfiança de muitos de seus torcedores, o Leão avançou às semifinais, conquistou o acesso e chegou ao vice-campeonato da Série C da Brasileiro.

A Série C jamais foi, é ou será lugar para este Gigante Tricolor.

O ano de 2018 marca seu Centenário e a contratação de Rogério Ceni como técnico imediatamente colocou o clube nas manchetes das principais mídias brasileiras. As expectativas pelos lados do Pici são as melhores possíveis e o acesso para a Série A do Brasileiro, um sonho a se tornar realidade.

Clássico Rei na Série A será uma das maiores atrações da competição.

Time fundado por funcionários da Rede Ferroviária em 1933, terceiro maior campeão do estado, com 9 conquistas, o Ferroviário viveu tempos de penúria nos últimos anos. O lamento pelo rebaixamento para a segunda divisão estadual em 2014, foi ainda maior por conta da falta de acesso nos anos seguintes. A volta à Primeira Divisão em 2017, aconteceu graças a desistência do vice-campeão. Devido a isso e das grandes dificuldades financeiras, as expectativas não eram das melhores.

Ledo engano, o Ferrão foi o grande de outrora e surpreendeu a todos ao eliminar o rival Fortaleza nas semifinais e chegar as finais diante o Ceará. Se o título não veio, o  vice-campeonato serviu para recolocar o Tubarão da Barra entre os maiores do estado e, o mais importante, de volta às competições nacionais em 2018.

Ferrão no Brasileiro é a perpetuação do Trio de Ferro cearense no cenário esportivo nacional.

Outra boa novidade para o futebol cearense vem do subúrbio, mais especificamente do tradicional bairro da Vila Manoel Sátiro, nas imediações do Mondubim. O Floresta Esporte Clube, time fundado em 1954 e que se profissionalizou faz cerca de 3 anos, conquistou o acesso para a primeira divisão do estadual no primeiro semestre. Como se não bastasse, ao vencer a Taça Fares Lopes diante o gigante Leão do Pici, o Fortaleza, conquistou uma vaga para a Copa do Brasil de 2018. Algo inimaginável para o tradicional alviverde fundado por Felipe de Lima Santiago, meu avô querido.

O futebol alencarino dá um novo e firme passo em busca de desafios ainda mais desafiadores. Alguém duvida?




 

 

O mais antigo time de futebol do Brasil: Clube Atlético São Paulo (SPAC)

Autor: José Renato - 27/08/2017   Comentários Nenhum comentário

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Nascido na cidade escocesa de Burnfoot, em 13 de junho de 1844, John Miller, passou boa parte da sua infância avistando os navios que passavam em direção as mais prosperas cidades industriais do país, dentre elas Greenook, Glasgow e Paisley. Já adulto, assim como muito técnicos britânicos de sua época, resolveu mudar para o Brasil, tendo em vista trabalhar na São Paulo Railway, empresa responsável pela construção da estrada de ferro Santos – Jundiaí. Em solos brasileiros, passaria a ganhar cerca de 400 libras, enquanto que na Grã Bretanha, apenas após muito tempo de trabalho poderia alcançar um salário de 300 libras anuais.

Já em terras paulistanas, John Miller se casou em 1870, com Carlota Alexandrina Fox, sobrinha de John Rudge que juntamente com ele viera trabalhar na São Paulo Railway. Carlota era brasileira nascida na cidade de São Paulo, em 3 de maio de 1850, filha dos ingleses Henry Fox, que trabalhava como relojoeiro, e Harriet Mathilda Rudge. O casal John e Carlota teve quatro filhos John Henry, Charles Miller, Carlota e Adolph, sendo que os dois últimos faleceram ainda crianças. Por não haver escola bilíngue na cidade naquele tempo e os pais acharem importante que eles fossem alfabetizados no idioma inglês, os meninos passaram a estudar em casa.

Preocupado com o futuro dos filhos, em 1884, John os mandou para estudarem na Inglaterra. Sendo assim, John Henry e Charles Miller, com cerca de 12 e 10 anos, respectivamente, juntamente com o primo William Fox Rule foram estudar na Banister Court School em Southampton. Naquele tempo, esta escola era dirigida por Christopher Ellaby, filho do fundador, que era um apaixonado por futebol e foi um grande incentivador para o que o menino Charles Miller adotasse este esporte, como o favorito, em detrimento aos mais populares na época, o rúgbi e o críquete. 

Em setembro de 1886, os meninos receberam a visita do pai, John, que fora para a Inglaterra fazer uma cirurgia de hérnia. Em 6 de outubro, ele veio a falecer na cidade escocesa de Glasgow. Após o funeral, o primo dos meninos, William retornou ao Brasil. Pouco tempo depois, coube a ele, juntamente com William Snape, William Speers, Peter Miller, Percy Lupton e Charles Walker fundar na cidade de São Paulo, em 13 de maio de 1888 (mesma data da assinatura da Lei Aurea, que aboliu a escravidão no país, pela Princesa Isabel), o São Paulo Athletic Club, o SPAC, primeiro clube esportivo na cidade e que tinha como objetivo ser um local onde os trabalhadores ingleses pudessem praticar os seus esportes preferidos.

Já na Inglaterra, as tardes de recreação de John Henry e Charles Miller eram ocupadas pelas partidas de futebol, onde logo passaram a se destacar. Em 1889, ao terminar seus estudos, John, com 17 anos retornou ao Brasil, deixando o irmão Charles sozinho em Southampton. Em março de 1892, John acabou falecendo por conta de disenteria, em São Paulo. Os estudos e o futebol acabaram por se tornar os grandes sustentáculos de Charles, sozinho e longe da mãe.

Nascido em São Paulo, em 24 de novembro de 1874, mais especificamente, no bairro do Brás, Charles William Miller, tinha pouco mais de 17 anos, quando em 18 de abril de 1892, atuou pela primeira vez na equipe da cidade, o St. Mary’s, time fundado em 21 de novembro de 1885, e atualmente conhecido como Southampton Football Club, na vitória de 3 a 1 frente a equipe do Exército do Quartel de Aldershot. Posteriormente, também chegou a atuar no Corinthian Football Club, o Corinthian´s Team, equipe inglesa fundada em 16 de dezembro de 1882 que serviu de inspiração para a criação do Sport Club Corinthians Paulista em 1º de setembro de 1910.

Já aos 19 anos Charles Miller era considerado um dos mais talentosos jogadores de sua região, quando resolveu que era momento de voltar ao Brasil para viver com a sua mãe, Carlota. Em outubro de 1894 ele chegou ao porto de Santos com uma mala que trazia, entre outras coisas, duas bolas de futebol, uma bomba de ar para enchê-las, um par de chuteiras e um livro de regras do association football.

Muito embora haja alguns indícios de registros mais antigos sobre a prática do futebol no Brasil, como atividade recreativa promovida por trabalhadores ingleses e junto a alguns estudantes em certos colégios jesuítas e maristas, foi a chegada de Charles Miller ao país, sobretudo com o livro de regras, que serviu de pontapé inicial para a realização das primeiras partidas de futebol no país. Por conta disso, ele é considerado o Pai do Futebol Brasileiro.

Assim como o pai houvera trabalhado, Charles arrumou um emprego na São Paulo Railway, e bem como a grande maioria dos ingleses residentes na capital paulista, passou a praticar atividades esportivas no São Paulo Athletic Club, o SPAC, que contou com seu primo, William Fox Rule, como um de seus fundadores. Por influência direta de Miller, muitos dos associados do SPAC passaram a praticar o esporte.

Não demorou muito para que o primeiro jogo de futebol, sob regras oficiais, fosse realizado no Brasil, o que aconteceu em 14 de abril de 1895 na Várzea do Carmo, na cidade de São Paulo. Naquele dia, a equipe formada por funcionários da São Paulo Railway, que contava com associados do SPAC, venceu, por 4 a 2 a equipe dos funcionários da São Paulo Gaz Company. Este jogo serviu de impulso para que vários associados do SPAC passassem a se encontrar semanalmente na Chácara Dulley, nas imediações do atual bairro do Bom Retiro, também em São Paulo, onde havia campo apropriado para que pudessem se manter em atividade. Por absoluta falta de equipe rival, o jeito foi formar duas equipes, de sócios, que costumavam se enfrentar.

Já no ano seguinte, em 1896, recém-chegado dos Estados Unidos, o professor Augusto Shaw iniciou as atividades esportivas no Mackenzie College, escola fundada em 1886, cuja sede se localizava, e ainda é, próxima ao SPAC, o que acabou por propiciar o surgimento da segunda equipe de futebol do Brasil, em 18 de agosto de 1898, a Associação Atlética Mackenzie College.

Em 1897, também chegou a São Paulo, o alemão Hans Nobiling, ex jogador de futebol do Sport Club Germania de sua cidade natal, Hamburgo. Sedento por “bater uma bolinha”, passou a frequentar a Chácara Dulley, onde assistia aos treinos dos atletas “ingleses” do SPAC. Logo, resolveu reunir amigos e enfim, matar a sua saudade da bola. No começo de 1899, Nobiling montou seu próprio time, que recebeu seu nome, Hans Nobiling, a terceira equipe de futebol do Brasil. Após desafiar o SPAC para um confronto, por conta da recusa dos ingleses, Nobiling marcou uma partida entre sua equipe e o Mackenzie.

Em 5 de março de 1899, Mackenzie College e Hans Nobiling disputaram a primeira partida entre equipes de futebol no Brasil, uma vez que o jogo de 1894 tinha contado com a participação funcionários de duas empresas. O confronto acabou empatado sem gols. Uma semana depois, em 12 de março, haveria uma segunda partida, desta vez entre o SPAC e o Mackenzie. A equipe de Charles Miller levou a melhor por 3 a 0.

A equipe do Hans Nobiling deixou de existir em 19 de agosto de 1899, quando seus integrantes resolveram criar um novo time, o Sport Club Internacional, nome sugerido pelo fato de contar com jogadores de várias nacionalidades. Contrariado por ter sido voto vencido na escolha do nome da nova equipe, em 7 de setembro de 1899, o próprio Hans Nobiling resolveu fundar o Sport Club Germania. A equipe seria campeã paulista em 1906 e 1915, e passou a se chamar Esporte Clube Pinheiros, a partir de 1942, por determinação do Governo Getúlio que emitiu um decreto proibindo o uso de nomes estrangeiros em entidades presentes no país, o que também acabou provocando a mudança de nome do São Paulo Athletic Club para Clube Atlético São Paulo. 

Quanto ao Internacional, chegou a conquistar dois títulos paulistas em 1907 e 1928. No entanto, as dificuldades financeiras foram implacáveis. Em sua ultima partida pelo campeonato paulista de 1932, em 18 de dezembro, entrou em campo frente o Juventus, sem um goleiro de ofício e com apenas 10 atletas, o resultado foi uma derrota por goleada, 6 a 2. Em 1933 se fundiu ao Antarctica Futebol Clube, dando origem ao Clube Atlético Paulista. Posteriormente, em 1937, participou de nova fusão, desta vez com Estudantes, o que resultou no Estudantes Paulista, que em 1938 foi incorporado pelo São Paulo Futebol Clube.

A Associação Atlética Mackenzie College esteve presente na primeira partida oficial da história do futebol brasileiro, em 3 de maio de 1902, válida pelo campeonato paulista, quando venceu o Germania por 2 a 1. Chegou a disputar de 13 edições do campeonato paulista, até que em 6 de outubro de 1920 se fundiu a Associação Portuguesa de Desportos, criando o Mackenzie Portuguesa, Mack-Port. A união se desfez em 27 de março de 1923 e o Mackenzie deixou de existir como time de futebol.

Já o São Paulo Athletic Club, liderado por Charles Miller, conquistou as três primeiras edições do campeonato paulista, em 1902, 1903 e 1904, levando a melhor frente ao Paulistano, que fora fundado em 29 de dezembro de 1900, nas três finais. Miller foi o artilheiro maior da competição em 1902 e 1904. A equipe de origem inglesa ainda conquistou a edição de 1911 e com o surgimento de um profissionalismo “não oficial”, o que contrariava o seu estatuto que pregava o amadorismo, resolveu abandonar a Liga Paulista de Foot-Ball em 1912, ano de sua ultima disputa nesta competição.

Após isso, o futebol no SPAC continuou sendo praticado por seus associados, com equipes formadas por atletas amadores e jogos disputados em sua maioria em caráter amistoso. Em 1923, o Sr. George Craig ofereceu uma taça que levou o nome de “Bom Accord”, de posse provisória, a ser disputada entre clubes britânicos do Rio de Janeiro e São Paulo, no caso, Rio Cricket e Associação Atlética e Clube Atlético São Paulo, o SPAC, respectivamente.

Quanto ao Rio Cricket cabe um importante registro. Clube criado, primordialmente, para a prática de críquete, em 15 de agosto de 1897, coube a ele abrigar a primeira partida de futebol sob regras, com bola e em campo oficial, no estado do Rio de Janeiro. Isto aconteceu em 22 de setembro de 1901 e contou com as participações de associados, alguns deles praticantes de outros esportes, e outros do Paysandu Cricket Club, que também era um clube de críquete, fundado em 15 de agosto de 1872, de onde o próprio Rio Cricket se originara. O grande responsável por este feito foi Oscar Cox, um carioca nascido em 20 de janeiro de 1880, que ao voltar da Suíça em 1898 onde houvera estudado, trouxe consigo duas bolas de couro e passou a introduzir o esporte entre os frequentadores do Rio Cricket. Caberia a ele ser um dos fundadores do Fluminense Football Club em 21 de julho de 1902. Já o Rio Cricket e o Paysandu, após aceitarem incluir em seus estatutos a prática do futebol, uma exigência da Liga Metropolitana de Football, participaram da primeira edição do campeão carioca de futebol em 1906. O Paysandu chegou ao conquistar o título máximo em 1912, mas abandonou as competições oficiais em 1914. O Rio Cricket resistiu até 1915, montando desde então equipes formadas por associadas que passaram a disputar partidas amistosas e os confrontos anuais frente o SPAC, o Clube Atlético São Paulo.

Para se ter ideia da importância histórica desta disputa, sua realização não foi interrompida nem durante os tempos de guerra, apenas em poucos anos na década de 1960, e acontece todo ano, intercaladamente, nas cidade de Niterói e São Paulo. O vencedor ganha o direito de ficar com a taça até a próxima disputa. Sendo assim, é correto afirmar que o SPAC continua com seu futebol ativo, assim como outros clubes brasileiros, que ainda disputam competições profissionais, e que surgiram em 1900. Dentre eles, cabe destacar dois deles que costumeiramente são indicadas como os mais antigos ainda em atividade, o Sport Club Rio Grande da cidade gaúcha homônima, fundado em 19 de julho de 1900, data escolhida pela CBF como o Dia do Futebol, e que jogou uma partida de futebol pela primeira vez em 7 de outubro daquele ano e a Associação Atlética Ponte Preta, da cidade de Campinas que nasceu em 11 de agosto de 1900 e que possui fortes indícios de ter entrado em campo pela primeira vez em setembro daquele ano.

Uma vez que o futebol brasileiro viveu durante mais de três décadas de forma amadora, até, oficialmente, o ano de 1933 e que boa parte das equipes atuais, já foram amadoras, conquistaram e contabilizam suas conquistas durante este período, é salutar considerar que os critérios a serem utilizados para definir qual a equipe mais antiga, ainda em atividade no país, seja a sua data de fundação e o fato dela continuar a participar de forma sistemática de partidas, sob regras oficiais, ainda que sejam de caráter amistoso, condições plenamente atendidas pelo Clube Atlético São Paulo, o SPAC.



 

 

A principal função do Esporte: Formar Cidadãos

Autor: José Renato - 20/08/2017   Comentários Nenhum comentário

É inegável afirmar o importante papel do esporte como elemento decisivo na inclusão social, mas principalmente em prol da formação de cidadãos. A lógica existente é óbvia, mas ainda assim merecedora de ser repetida exaustão: “Esporte é Vida, Pratique”. Quem segue por este caminho não tem tempo para olhar por outras alternativas equívocadas.

Ainda nos idos dos anos 1950 meu avô acreditava neste lema quando criou um time de futebol, o Floresta, no quintal da sua casa para que a molecada dos bairros cearenses próximos a Vila Manoel Sátiro e Mondubim pudesse praticar o futebol. O objetivo sempre esteve longe de ser formar grandes atletas, ainda que isto tenha acontecido por décadas, mas sim formar pessoas. Os valores sobre os quais os que praticam qualquer atividade física estão próximos, certamente os afastam das ‘coisas erradas’, costumava falar sua cunhada, Irelda, uma tricolor ferrenha com quem costumava protagonizar impagáveis discussões sobre quem era o melhor time da cidade, o Ceará ou o Fortaleza.

Por conta desta feliz oportunidade de viver neste meio, sempre tive o esporte no mesmo patamar de outras questões tão importantes. Conviver em família, ir ao culto religioso e praticar atividades esportivas se complementavam. Quanto ao time do meu avô, à medida que os anos avançavam, uma clara diferença veio à tona e dizia respeito ao esporte de alto desempenho. Tão logo o Floresta foi inscrito para participar de competições organizadas pela federação cearense de futebol, algumas questões importantes vieram à tona, uma delas com relação as arbitragens que costumavam atrapalhar a nossa equipe suburbana, principalmente quando enfrentava os maiores clubes do estado. Lembro de oportunidades de partidas em que três a quatro jogadores foram expulsos em jogos contra Ceará, Fortaleza e Feroviário, que suavam, para, ainda assim, apenas empatarem.

Mas havia algo que me deixava ainda mais atônito, a reação calma do meu avô diante todos estes fatos. Com uma sabedoria única, originária do semi árido de Russas, ele se resumia a afirmar: “Junior (como ele me chamava), mas o que eu quero é formar homens de bem, e nisso estamos ganhando de goleada”. E foi mesmo. Até hoje são muitas as famílias que lembram dos tempos dos ‘rachas’ no Sítio Floresta. Muitos daqueles meninos, hoje já são avôs e relembram com sorriso saudoso daqueles tempos de alegria sem fim.

Um dia desses, me encontrei com um deles, Fernando Louro, que chegou a se profissionalizar e, até mesmo, a jogar no exterior. Ele comentou que trabalhava o dia todo e à noite se juntava aos amigos para treinar. Logo perguntei: “Como conseguia competir em alto nível desta maneira?” Ele não refutou a fazer uma dura afirmação: “Zé, sempre tive na minha cabeça que precisava estudar e trabalhar. O esporte surgiu como um presente, um sonho meu. Jamais poderia colocar a minha família dentro de um sonho que era apenas meu. Por isso só abri mão de meus estudos e trabalho como office boy, quando vi que poderia viver como atleta.” Conhecendo sua família e formação, não me surpreendi, mas ainda havia algo mais por vir, qaundo ele arrematou: “Sou muito solidário com qualquer atleta que busca o alto desempenho, quando ele reclama da falta de apoio, mas cá entre nós, esporte bom é aquele que forma cidadão, campeão na vida e não aquele que se resume a ocupar de medalhas estantes empoeiradas no canto da sala e o bolso de tanta gente.”

Pois é, durma se com um barulho desses, ainda mais em um país tão carente que luta ainda pela adoção de uma verdadeira política de esportes. Ainda vivemos um modelo de gestão do qual boa parte das atividades esportivas tendem a ser geridas por entidades privadas, que são as federações, sobre as quais recaem interesses muito particulares, em parte delas, nem sempre muito republicanos. Lamentavelmente alguns atletas acreditam neste preceito e entendem que devem ter suas atividades esportivas, seus sonhos, serem bancadas pelo poder público e/ou entidades privadas. Certamente, muito mais que carência, um equívoco de abrangência moral.



 

 

O menino torcedor e seus tantos amores

Autor: José Renato - 13/08/2017   Comentários Nenhum comentário

Vivi minha infância durante a década de 1970. Confesso ser ‘uma das viúvas’ de umas das maiores revistas esportivas de toda história, a Placar, onde tive a oportunidade de atuar profissionalmente parte do ano passado, durante o curto período em que ela esteve sob gestão da Editora Caras, a pedido de um amigo único, Edgardo Martólio. 

Costumo falar que aprendi a ler com ela. Naquele tempo o futebol era quase o ar que eu respirava. Minto, era o ar mesmo. Por conta do Tabelão, seção da revista que trazia os resultados de jogos de todos os estados brasileiros, passei a acompanhar vários times e, de alguma forma, a torcer por um em cada estado. Usava diferentes critérios, alguns muito particulares, confesso.

Dois deles são os meus maiores amores, acima de todos os demais. Sim, há diferentes formas e intensidades de amar, sendo assim São Paulo e Ceará estão no topo. Entre eles, posso confessar, há uma cor a mais que define a primeira colocação. Ainda assim há motivos razoáveis por estas escolhas.

Em São Paulo e no mundo, como já afirmei, sempre fui tricolor, muito por conta do meu tio, Fernando Sátiro, ter jogado lá. Ele fez parte da equipe titular que inaugurou o estádio do Morumbi em 2 de outubro de 1960. Já no Ceará, ainda que meu tio bisavô, Alcides Santos, tenha fundado o Fortaleza, e o vizinho da minha avó, Waldemar Caracas, o Ferroviário, sempre fui Vozão, o Ceará Sporting Club, devido ao fato de meu avô, Felipe, ser alvinegro. Já nos outros estados, dá lhe particularidades!!! Vamos lá...

No Rio de Janeiro, sou Goytacaz. Motivo? Sempre achei o nome, de origem indígena, muito legal. Confesso também que sequer sabia que o alviceleste, rival do Americano, era da cidade de Campos dos Goytacazes, distante quase 300 km da capital. Em Minas Gerais, torço pelo alvirrubro Valeriodoce, da cidade de Itabira, cujo nome se originou da empresa que bancou o seu futebol durante muitos anos, a mineradora Vale do Rio Doce. Para fechar a região sudeste, no Espírito Santo, por ter um primo chamado Mateus, filho de dois queridos João Mascarenhas e Benedicta, escolhi outro alviceleste, o São Mateus.

Indo para a região sul, no Rio Grande do Sul, sempre gostei da camisa grená do Caxias, o que me fez seu torcedor. No entanto, por ter um amigo muito querido, Dr. Francisco Michielin, ferrenho seguidor do rival, Juventude, me permiti a virar casaca. No Paraná, mais uma vez o critério da ‘muito particular beleza’ do nome, sou Matsubara. O alviverde, originalmente da cidade de Cambará, foi criado pela família oriental homônima. Por fim, em Santa Catarina, me acostumei tanto a ver o Joinville campeão, durante os anos de 1970 e 1980, octacampeão naqueles tempos, que sou JEC.

Saltando para o Centro Oeste, em Goiás, sou Anapolina, a Xata, por um motivo meio absurdo. A perda do título estadual de 1981, no tapetão para, o Goiás. Mas, como sou cheio contradições, tenho simpatia também pelo alviverde. Com especial menção honrosa ao Atlético, cujos fundadores flamenguistas e são paulinos, o fez rubro negro com o distintivo similar ao meu tricolor paulista. No Mato Grosso do Sul, sou Operário, o alvinegro do goleiro Manga, que perdeu por 3 a 0 para o São Paulo nas semifinais do campeonato brasileiro de 1977, em partida que, juntamente com meu pai, não consegui entrar no estádio, completamente lotado. No outro Mato Grosso, sou o alviceleste Dom Bosco, mesmo nome do colégio perto da escola onde estudei, o Santa Inês, no bairro do Bom Retiro, na zona norte de São Paulo. Por fim no Distrito Federal, sou Guará, não sei bem porque, talvez por ser um tricolor com uma diferente combinação de cores: amarelo, preto e branco. 

No nordeste, na Bahia, ainda que tenha suportado muito pressão familiar, sobretudo dos meus primos que moravam em Salvador, todos tricolores, sempre achei o alviceleste Itabuna, equipe homônima da cidade natal de Jorge Amado, o mais legal. Em Sergipe, mais um alviceleste, desta vez apenas para ser ‘do contra’. Pelo motivo do Sergipe e do Itabaiana ganharem, naquela época, a maior parte dos títulos, sou Confiança. No Rio Grande do Norte, sou ABC, pelo fato de um dos maiores ídolos da história da equipe alvinegra potiguar, ser Sérgio Alves, que também é um dos grande nomes do futebol do meu Vozão. Em Alagoas, eram muitas siglas para escolher, CRB, CSA, CSE, ASA e tantos outros. Por isso escolhi um clube que tinha um nome. No caso, o alvirrubro Penedense, da cidade de Penedo. Acho simpáticos os times cujos nomes acabam com ‘ense’.

No Pernambuco, a minha primeira lembrança futebolística é do Santa Cruz, que teve um timaço nos anos 1970, batendo, como visitantes, Flamengo e Palmeiras. Foi lá também onde se destacou um dos meus ídolos, o zagueiro Lula Pereira. Mas por ter grandes amigos alvirrubros, dentre eles, Mestre Roberto Vieira, Carlos Celso, Lucídio e Lenivaldo, sou Timbu, o Náutico. No Piauí, sou tricolor, o Ríver, do Pelé piauiense, Sima e que durante anos teve um distintivo similar ao do meu tricolor paulista. Nos últimos dois estados nordestinos, escolhi torcer para dois times, em cada, e rivais, veja se é possível. No Maranhão, sou Sampaio Corrêa, a quem chamava erroneamente, quando criança, de “São Paulo Corrêa”. Mas também sou Moto, porque?  Simples, foi fundado no dia do meu aniversário, 13 de setembro. Fica a dica. Este também foi o critério para escolher o Treze na Paraíba. Como deixar de torcer para uma equipe que se chama o dia do seu aniversário? Mas lá, também sou Botafogo da Paraíba, alvinegro como o homônimo do Rio de Janeiro e que ao ganhar uma estrela vermelha, se tornou tricolor, o meu ‘fraco’.

Chegando no Norte, primeiramente em Manaus, onde morei por alguns anos. Escolhi o Fast no Amazonas, por ser o único tricolor com 4 cores. Mas tenho simpatia pelo Rio Negro, nome de um dos mais belos rios do mundo. No entanto, por conta de um amigo, Amarildo, sou alviverde, Iranduba, ainda que a camisa mais bonita seja do Sul América, tricolor: vermelha, azul e branca. No Pará, sempre tive simpatia pelo Remo, azulino com cores fortes, mas por ter muitos amigos torcedores do Papão, o Paysandu, dei uma sútil virada de casaca.

Vinte e dois estados, mais o Distrito Federal. Naquele tempo, eram estes os meus limites. A revista Placar não costumava cobrir o futebol do Acre, Amapá, Rondônia e Roraima. O estado de Tocantins sequer existia. Eis que aqui completo minha lista. No Acre, do meu amigo Manoel Façanha, sou Rio Branco, o estrelão cujo cor vermelha representa o sangue dos mortos pela luta em prol da anexação da área ao país. No Amapá, sou o São Paulo local, por motivos óbvios. Em Rondônia, sou alviceleste, Ji-Paraná, pela etimologia do nome indígena, yî (machado) e paranã (grande rio), alusão ao grande número de pedras que se parecem com machados indígenas. Já em Roraima, sou alvirrubro, Náutico, homônimo ao meu timbu pernambucano. Por fim, Tocantins. Afinal alguém pode torcer por algum time lá? Sim, eu sou Alvorada, nome do bairro manauara próximo de onde morei.

Trinta e tantos times, será que há algo mais apaixonante que futebol?



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